quarta-feira, 2 de julho de 2014

ESTUDO SOBRE O PECADO: O que é pecado, Origem e Consequências.

Por Taciano Cassimiro


INTRODUÇÃO
Pecado, embora esteja em evidencia na sociedade moderna, não costuma ser um tema popular, pra não dizer agradável. Entre os cristãos o tema também  não é muito bem vindo. Certa ocasião ministrava uma série de palestras sobre o assunto.Quando notei que uma irmã e dois irmãos deixaram de vir a igreja. Procurei saber o motivo. Ao visita-los as respostas foram – o senhor anda muito bravo, ficamos constrangidos, aborrecidos, então pra não pecar prefiro ficar em casa. Outro afirmou - gostamos mais quando o senhor faz a gente ri, fala de amor e alegria. Reações como essas são comuns quando a mensagem da realidade do pecado é pronunciada.
 No entanto devemos ser fiéis Aquele que nos chamou, e como dizia o puritano John Owen (1616-1683) “  o pecado precisa ser vigiado e resistido “.  Também não podemos esquecer que estamos alimentando ovelhas, e não entretendo os bodes.

I.            O QUE É PECADO?

Millard J. Erikison nos dá a seguinte definição “ Qualquer ação, atitude ou disposição que fracasse em cumprir ou alcançar de modo completo os padrões da justiça de Deus. Pode ser uma transgressão real da lei de Deus ou uma falha em viver segundo as normas suas normas”.[1]
O teólogo sistemático reformado Louis Berkhof[2] (1873-1957) cujas obras têm sido muito influentes na teologia calvinista da América do Norte e da América Latina nos trás as seguintes definições em hebraico e grego:.
HEBRAICO
     ·         Chatta `th – pecado como um efeito que erra o alvo e que consiste num desvio do caminho certo.
      ·         Avel e `Avon – indicam que é uma falta de integridade e retidão, uma saída da vereda designada.
     ·         Pesha – uma revolta ou uma recusa de sujeição à autoridade legítima, uma positiva transgressão da lei, e um rompimento da aliança.

As palavras gregas do Novo Testamento correspondentes, como hamartia,  adikia, parabasis, paraptoma, anomia e paranomia e outras, indicam as mesmas ideias.
O Catecismo Maior de Westminster[3] na pergunta, 24. Que é pecado? Define da seguinte forma: Pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por Ele dada como regra, à criatura racional. Rom. 3:23; 1 João 3:4; Gal. 3:10-12.
Segundo Santo Agostinho, o pecado é "«uma palavra, um ato ou um desejo contrários à Lei eterna»", causando por isso ofensa a Deus e ao seu amor.
A Igreja Católica Apostólica Romana formulou uma lista de pecados no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno conhecidos como os Sete Pecados Capitais[4], são eles:1. Luxúria: apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia. 2. Gula: comer somente por prazer, em quantidade superior àquela necessária para o corpo humano.
3. Avareza: apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas. 4. Ira: raiva contra alguém, vontade de vingança. 5. Soberba: manifestação de orgulho e arrogância.
6. Vaidade: preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros. 7Preguiça: negligência ou falta de vontade para o trabalho ou atividades importantes.
Biblicamente encontramos os pecados de Comissão e Omissão:
Comissão – quando fazemos deliberadamente o que não devíamos fazer, 1 Jo 3.4
Omissão – quando deixamos de fazer o que deveríamos,Tg 4.7
Também é interessante notar que a Bíblia apresenta a lista de “ sete pecados “ destestáveis: “ Há seis coisas que o Senhor detesta; sim, há sete que ele abomina: 1 olhos altivos, 2 língua mentirosa, e 3 mãos que derramam sangue inocente; 4 coração que maquina projetos iníquos, 5 pés que se apressam a correr para o mal; 6 testemunha falsa que profere mentiras, e 7 o que semeia contendas entre irmãos” Pv 6.16-19.  
Em suma pecado na Bíblia é:
Ø  Transgressão da lei 1 Jo 3.4
Ø  Falta de conformidade Gl 3.10,12
Ø  Deixar de fazer o bem Tg 4.17
Ø  É ausência de santidade 2 Co 7.1; Ap 4.8

II.           ORIGEM DO PECADO
Agora chegamos a um dos pontos mais polêmico do estudo, pois como explicar a origem do pecado. Como ele se originou? Quem cometeu o primeiro pecado? Deus? o diabo? Ou o homem?
A Enciclopédia  Histórico-Teológica ao tratar do assunto diz o que segue “ A origem do pecado realmente é um mistério e está ligada com o problema do mal. A história de Adão e Eva não oferece-nos uma explicação totalmente satisfatória do pecado nem do mal ( não foi essa a intenção da história ), mas recentemente lança luz sobre a dificuldade humana universal. Essa história nos conta que antes do pecado humano havia o pecado demoníaco que forneceu a ocasião para a transgressão humana. A teologia ortodoxa, tanto católica como protestante, fala de uma queda dos anjos antes da queda do homem, atribuída ao abuso do dom divino da liberdade. O consenso geral entre os teólogos ortodoxos é que o mal moral ( o pecado ) monta o palco para o mal físico ( as desgraças naturais ), mas o modo exato como aquele provoca este provavelmente permanecerá sempre um assunto de especulação humana[5].
    1.   Deus não é o autor do pecado
Louis Berkhof diz “ O decreto eterno de Deus evidentemente deu a certeza da entrada do pecado no mundo,mas não se pode interpretar io de modo que faça de Deus a causa do pecado no sentido de ser ele o seu autor responsável. Esta ideia é claramente excluída pela Escritura”[6]. A Confissão de Fé de Westminster[7] no capítulo V – DA PROVIDÊNCIA faz a seguinte afirmação “IV. A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa em uma múltipla dispensarão mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo. Isa. 45:7; Rom. 11:32-34; At. 4:27-28; Sal. 76:10; II Reis 19:28; At.14:16; Gen. 50:20; Isa. 10:12; I João 2:16; Sal. 50:21; Tiago 1:17.
    2.   O Pecado se originou entre os anjos
É praticamente consenso entre os teólogos que o pecado tem sua origem no mundo angelical, antes de Adão ser formado. Alguns na tentativa de esclarecer a questão propõem que Is 14.12-13 e Ez 28.11-19 refere-se à queda de Satanás num período ante-Adão.
É o caso de J. Dwigtht Pentecost em seu Manual de Escatologia[8], que fazendo uso da passagem citada intitula “ O reino universal desafiado “ e diz o que segue”... Um estudo cuidadoso dessas observações levará a conclusão de que cada fase do pecado original de Satanás foi um ato de rebelião contra a autoridade constituída de Deus, motivado pelo desejo cobiçoso de apropriar-se daquela mesma soberania...”.
Embora concorde que o pecado se originou no mundo angélico não defendo que as passagens de Isaías e Ezequiel estejam se referindo a Satanás. Vejo tal interpretação um tanto malabarista ( usa-se dos textos somente o que interessa para defender a teoria ), esforçando-se para afirmar o que o texto não afirma.
Quanto ao tipo de pecado que ocasionou a queda dos anjos o texto de 1 Tm 3.6 lança luz ao dizer “.. não neófito, para que não se ensoberbeça e venha a cair na condenação do Diabo.”. Logo, seria o pecado de orgulho.
    3.   A origem do pecado na história ou raça humana
É bem mais fácil tratar do pecado e sua origem na história da humanidade uma vez que temos muitos textos que tratam do assunto. É possível caminhar com mais luz.
O texto de Gn 2 e 3 nos permite entender que Adão foi posto no paraíso como nosso representante. O problema é que Adão pecou, desobedeceu a uma ordem direta de Deus, Gn 2.16-17; 3.6.
Adão representou a todos nós pela sua desobediência e pecado. O que ele fez foi, com efeito, o que toda a sua posteridade, todos e cada um de nós, fez. Thomas Manton expressa isto deste modo: “vimos o fruto proibido com seus olhos,apanhamo-lo com suas mãos, comemos com sua boca; isto é, fomos arruinados por aquelas coisas como se tivéssemos estado lá e consentido com seus atos[9].
O relato de Gênesis 3, nos oferece todos os elementos que constituíram a entrada do pecado na raça humana, que sem duvida podemos afirmar foi por um ato Livre de Adão, Rm 5.12.
A Confissão de Fé de Westminster ajuda-nos a ampliar nosso entendimento no capítulo VI - DA QUEDA DO HOMEM, DO PECADO E DO SEU CASTIGO e parágrafo I, ensina: Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram, comendo do fruto proibido. Segundo o seu sábio e santo conselho, foi Deus servido permitir este pecado deles, havendo determinado ordená-lo para a sua própria glória. Gen. 3:13; II Cor. 11:3; Rom. 11:32 e 5:20-21.

III.        CONSEQUÊNCIAS DO PECADO
Em sua Teologia Sistemática Charles Hodge ao falar das consequências da queda apresenta o que segue “ As consequências desse ato de desobediência foram: 1. Um senso imediato de culpa e de vergonha. 2. O desejo e o esforço para ocultar-se da face de Deus. 3. A denúncia e imediata execução do justo juízo de Deus sobre a serpente, sobre o homem e sobre a mulher. 4. A expulsão do jardim do  Éden e a proibição de aproximar-se da Árvore da Vida[10].
A Confissão de Fé de Westminster mais uma vez fornece-nos ricas considerações sobre as consequências do pecado nos parágrafos que segue, eis: II. Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma.Gen. 3:6-8; Rom. 3:23; Gen. 2:17; Ef. 2:1-3; Rom. 5:12; Gen. 6:5; Jer. 17:9; Tito 1:15; Rom.3:10-18.
III. Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária. At. 17:26; Gen. 2:17; Rom. 5:17, 15-19; I Cor. 15:21-22,45, 49; Sal.51:5; Gen.5:3; João3:6.
IV. Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais. Rom. 5:6, 7:18 e 5:7; Col. 1:21; Gen. 6:5 e 8:21; Rom. 3:10-12; Tiago 1:14-15; Ef. 2:2-3; Mat. 15-19.
Na Confissão de Fé de Westminster Comentada por A.A. Hodge[11] ao comentar os parágrafos acima temos as seguintes sentenças:
Parágrafo II
  1.    Que por este pecado eles foram imediatamente cortados da comunhão com Deus.
  2.    Que consequentemente perderam sua justiça original.
  3.    Ao mesmo tempo, se tornaram mortos em pecado e totalmente corrompidos.
  4.    Que essa corrupção moral se estendeu a todas as faculdades e partes da alma e do corpo.
Parágrafos III e IV
  5.    Que adão foi a cabeça natural e federal de toda a humanidade.
  6.    Que consequentemente a culpa ou responsabilidade pelas consequências penais daquele pecado foi imputada, lançada na conta de todos os homens, e atualmente aplicada sobre todos os homens desde seu nascimento.
  7.    Que consequentemente a corrupção moral, que resulta do afastamento penal do Espírito Santo de Deus no caso de nossos primeiros paias, é necessariamente comunicada a todos os de sua descendência que são produzidos por geração ordinária.
  8.    Esta depravação hereditária inata da alma é total, pois por meio dela somos totalmente indispostos, incapazes e antagônicos a todo bem e totalmente inclinados ao mal.
  9.    Desta depravação moral inata procedem todas as transgressões subsequentes.
A doutrina do pecado e suas consequências é uma pagina dolorosa da história da raça humana, é o retrato perfeito da alienação, evasiva e loucura humana. Ao fazer tal afirmação somos imediatamente remetidos as palavras do profeta Isaías 59.1-2Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para que não possa ouvir; mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados esconderam o seu rosto de vós, de modo que não vos ouça”.

CONCLUSÃO
Nesse estudo vimos a definição de pecado, origem do pecado e as consequências do pecado. Assim, entendemos que não podemos brincar de pecar, brincar com o pecado, pois já conhecemos as consequências. Precisamos mais do que nunca levar esse tema a sério começando por nós mesmos. É hora de despertarmos do sono, Rm 13.11-14  “ E isso fazei, conhecendo o tempo, que já é hora de despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando nos tornamos crentes. A noite é passada, e o dia é chegado; dispamo-nos, pois, das obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como de dia: não em glutonarias e bebedeiras, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo; e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências”. 


Autor: Líder da Igreja Presbiteriana de Tailândia no Pará. Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Rio de Janeiro


OBS. Estudo simples cujo objetivo é contribuir para o crescimento em graça e conhecimento dos servos de Deus.
O conteúdo acima pode ser copiado, compartilhado, utilizado em sites, blogs e etc. Desde que a fonte seja citada.





[1] Conciso Dicionário de Teologia Cristã. Erickson, J. Millard, pg 125.
[2] Teologia Sistemática. Berkhof, Louis, pg 214. 4º Ed. Revisada, São Paulo: Cultura Cristã,2012.
[3] O Catecismo Maior de Westminster, formulado pela Assembleia de Westminster, no século XVII, é um catecismo de orientação calvinista, composto de 196 questões. Junto da Confissão de Fé de Westminster e do Breve Catecismo, compõe os símbolos de fé das igrejas presbiterianas ao redor do mundo. http://pt.wikipedia.org/wiki/Catecismo_Maior_de_Westminster
[4] http://www.suapesquisa.com/religiaosociais/sete_pecados_capitais.htm
[5] Elwell, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã VOL III. Pg 110-111. SREVN 1º Ed. 1990.
[6] Teologia Sistemática. Berkhof, Louis, pg 204. 4º Ed. Revisada, São Paulo: Cultura Cristã,2012
[7] A Confissão de Fé de Westminster foi elaborada a partir de julho de 1643, e concluída em fevereiro de 1649. Nesse período houve 1163 reuniões do plenário e centenas de reuniões de comissões. O parlamento inglês tinha como objetivo preparar uma nova base de doutrina, forma de culto e governo eclesiástico. A CFW é um pequeno manual de teologia bíblica com 33capítulos.
[8] Pentecost, J. Dwigtht. Manual de Escatologia, pg 442,443.
[9] Hulse, Erroll. Quem foram os puritanos, e o que eles ensinaram? Pg 224.
[10] Hodge, Charles. Teologia Sistemática. Pg 576
[11] Hodge, A.A.  Confissão de Fé de Westminster Comentada. Pg 153,155.

Um comentário:

Anônimo disse...

Maravilhoso o estudo edificante para nossa alma. Que Deus continue do seu celeiro infinito abrindo portas assim da sua palavra.

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